8# ARTES E ESPETCULOS 21.5.14

     8#1 CINEMA  UM SALTO QUNTICO
     8#2 CINEMA  A ESTRADA SOME
     8#3 CINEMA  ISSO A NOVELA NO MOSTRA
     8#4 LIVROS  A BELEZA DA GUERRA
     8#5 VEJA RECOMENDA
     8#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     8#7 J.R. GUZZO  BALA PARA TODO LADO

8#1 CINEMA  UM SALTO QUNTICO
Em seu quinto filme, Dias de um Futuro Esquecido, os mutantes X-Men fazem aquilo que todo ser humano comum quer tambm: reescrever a histria em seu favor. 
ISABELA BOSCOV 

     Em X-Men  O Filme, naquela que  talvez a cena mais antolgica de todos os filmes dos mutantes da Marvel produzidos nos ltimos catorze anos, o garoto Erik Lehnsherr revela seu poder nico de comandar o metal enquanto atravessa, junto com outros judeus, os portes do campo de extermnio de Auschwitz, em 1944: transtornado pelo medo, Erik faz as barras de ferro se retorcerem, causando um tumulto e funestamente atraindo a ateno dos nazistas para si. O Holocausto, que transformaria Erik no irascvel e vingativo Magneto,  uma perfeita encapsulao do tema do encurralamento, alijamento ou aniquilao daqueles que so considerados diferentes e portanto inferiores ou ameaadores, central a todos os episdios da srie  e os ecos desse genocdio reverberam mais fortes do que nunca em X-Men  Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of a Future Past, Estados Unidos, 2014), que estreia no pas nesta quinta-feira. 
     Seguindo-se ao intoxicante X-Men  Primeira Classe, de 2011, em que o telepata Professor Xavier e seu melhor inimigo, Magneto, tinham papel insuspeito na Crise dos Msseis de Cuba, de 1962, este quinto enredo a reunir o grupo de mutantes mais uma vez se dedica a reler a histria real  luz da interveno nela dos X-Men. Agora, est-se em 1973; Estados Unidos e Vietn negociam o fim da guerra na conferncia do Acordo de Paz de Paris. O governo de Richard Nixon, desmoralizado pela necessidade iminente de retirar suas tropas do Sudeste Asitico, encontra-se particularmente vulnervel  influncia paranoide de pessoas como Bolvar Trask (Peter Dinklage, o Tyrion Lannister de Game of Thrones). Pesquisador e industrial, Trask identificou a existncia de mutantes com habilidades especiais entre a humanidade. Cr que, assim como o Homo sapiens venceu os neandertais na batalha evolutiva, os mutantes agora vencero o Homo sapiens  a no ser que se comece a implementar seu programa de Sentinelas, robs que tm eles prprios a capacidade de mudar e se adaptar para combater com vantagem essas criaturas aberrantes. Trask consegue impor sua viso. E, de cinquenta anos  frente, os poucos X-Men que restaram do genocdio instaurado com a presena das Sentinelas (o qual resultou na morte ou escravizao no s de mutantes, mas de milhes de seres humanos comuns) tentam combinar seus poderes para refazer a histria. Especificamente, os velhos Xavier e Erik (Patrick Stewart e Ian McKellen) necessitam que Wolverine (Hugh Jackman) retorne ao tempo da cala boca de sino e da lava lamp para arregimentar a ajuda de seus jovens alter egos (respectivamente, James McAvoy e Michael Fassbender) e impedir que Mystique (Jenniter Lawrence) assassine Trask  evento que, para o Estado-Maior, serve como confirmao das teorias do industrial e sinal verde para o projeto Sentinela.  
     Que o mais brusco e impaciente de todos os X-Men seja enviado ao passado em misso diplomtica , claro, o toque de humor de Dias de um Futuro Esquecido. O outro elemento de leveza est na entrada de Quicksilver (Evan Peters), um jovem iconoclasta capaz de se mover quase  velocidade da luz e protagonista de um trecho excelente do filme, no qual, com o tempo quase parado, ele caprichosamente ajeita balas de revlver, punhos, mesas e objetos de cozinha para efetuar a bombstica libertao de Magneto de sua priso no Pentgono (essa, um captulo  parte, que tem algo a ver com a trajetria errtica da bala que matou o presidente John Kennedy em Dallas, em 1963). O tom predominante, porm,  sombrio e apocalptico. Se no decorrer de sua carreira cinematogrfica super-heris como o Batman do diretor Christopher Nolan ganharam pesados dilemas morais com que lidar, os X-Men j nasceram polticos e engajados nos quadrinhos. Nos trs filmes dirigidos por Bryan Singer (os dois primeiros e este aqui), eles so ainda uma representao do impasse existencial entre defender-se ou atacar, como ressalta o ator Ian McKellen na entrevista nestas pginas. E, acima de tudo, so uma ferramenta filosfica: quanto mais do passado se revela, mais ele mudar diante dos nossos olhos. 
     Lamentvel ser se essa regra terminar por se aplicar ao prprio Singer. Nas ltimas semanas, um advogado entrou com duas acusaes de molestamento contra o diretor; seus clientes alegam ter sido coagidos a fazer sexo com ele quando eram menores de idade. O advogado, porm, j sofreu vrias sanes de sua entidade de classe e tem reputao muito duvidosa; a coincidncia do anncio com o lanamento do filme levanta suspeita de oportunismo; e, em depoimento que veio  tona na semana passada sob juramento e pena de perjrio, uma das supostas vtimas declarou que teria de fato inventado tudo. Esse, porm,  o tipo de dvida que tende a pairar, e, a no ser que consiga efetivamente refutar as acusaes, Singer estar sempre sob a sombra delas. Trazer  tona a histria que se desconhecia  sempre necessrio, por mais terrvel que seja o saldo  e ainda no est claro se no seria esse o caso aqui. J modificar a histria real com dados fictcios  uma prtica tolervel apenas em fantasias de super-heris. 

O TODO-PODEROSO
Hoje um dos mais requisitados atores do cinema, o ingls Ian McKellen, de 74 anos, virou astro tarde, e por meios inesperados, com uma adaptao de Ricardo III, de Shakespeare, em 1995. Desde ento, tornou-se cone para milhes de fanboys e fangirls ao redor do mundo: foi cinco vezes o mago Gandalf, de O Senhor dos Anis, e outras cinco o Magneto de X-Men. Curiosidade: seu segundo maior contingente de seguidores no Facebook est entre os brasileiros (que perdem para os americanos, mas ganham at dos ingleses). McKellen falou a VEJA sobre qual o significado, para ele, dos X-Men.  

Pode-se dizer que o verdadeiro poder mgico de Gandalf, de O Senhor dos Anis,  manter sua f no mundo embora saiba o mal que ele contm  ao passo que o Magneto de X-Men, tendo conhecido esse mal, se tornou amargo e cheio de dio. Ou seria ele o mais lcido dos dois? 
Eu diria que O Senhor dos Anis  uma fantasia, ponto, e Gandalf sabe muito bem qual o lugar dele naquele mundo. J X-Men  tambm uma fantasia, mas sobre como a humanidade trata os que so diferentes. E essa experincia pode ser atroz. Na Inglaterra e na maior parte do mundo, os gays, como eu, foram ou so ainda tratados como se fossem mutantes. Como algum que pertence a um grupo de diferentes - homossexuais, por exemplo, ou, no caso de X-Men, mutantes - deve agir diante desse tratamento? Buscar uma conciliao, como faz o Professor Xavier, ou partir para a ofensiva, como Magneto? Creio que essa  a principal razo pela qual os filmes dos X-Men so to populares. A maioria de ns j se sentiu rejeitada ou diminuda alguma vez na vida por ser o que . 

O senhor declarou ser homossexual em 1988, quando poucos atores ainda ousavam faz-lo, e desde ento tornou-se um militante da causa. Os avanos, porm, so relativos, no? As leis inglesas, por exemplo, mantm uma srie de restries aos gays. 
Quando algum se envolve na tentativa de mudar uma situao, tem de ter em  mente que inmeras dificuldades vo se apresentar. Uma delas , claro, o preconceito - o qual, em geral,  fruto da ignorncia. Tudo o que se pode fazer  tentar mostrar, com serenidade, que o preconceito traz grande sofrimento s suas vtimas e atraso para uma sociedade.  preciso perguntar s pessoas se elas querem realmente tornar terrvel a vida de algum por no aprovar suas escolhas. Creio que, no fundo, elas no querem ser a causa do sofrimento de outro e acreditam que todos devemos ser iguais para a lei. 

O senhor pagou algum preo por sair do armrio? 
Ao contrrio. A partir da, minha carreira no cinema decolou. No enfrentei nenhuma desvantagem e colhi um sem-nmero de vantagens. Acho que quando algum carrega um segredo, seja ele de que natureza for, esse peso pode ser opressivo de formas que nem suspeitamos. Mas, quando se vem a pblico com ele, ganha-se respeito, porque as pessoas em geral admiram a honestidade. 

O senhor mudou tambm como ator? 
Interpretar, para mim, era antes um disfarce. Quando assumi ser gay, isso se transformou: atuar deixou de ser um disfarce e se tornou uma forma de buscar verdades. Creio sinceramente que sou melhor ator hoje do que antes.  

O senhor comeou a carreira durante uma era de ouro do teatro ingls. Tinha essa noo? 
Eu me tornei ator porque gostava de ver filmes e peas e me interessava saber como se fazia aquilo. Quando me profissionalizei, achei que era um trabalho muito gratificante. Mas no me dei conta de que estava num momento particularmente fervilhante e inovador da dramaturgia. J estava feliz por ter emprego. E, ademais, nunca fui um iniciador: no sou autor nem diretor, s ator. Tenho uma pequena participao nesse processo de entreter e, talvez, fazer pensar. 

Sem atores, porm, os autores e diretores no chegariam muito longe. 
L isso  verdade! 


8#2 CINEMA  A ESTRADA SOME
Como nos outros filmes de Karim Anouz, em Praia do Futuro cobrir distncias  um ato de coragem  e olhar para o que ficou para trs  uma dor sem tamanho.
ISABELA BOSCOV

     Salva-vidas na Praia do Futuro, Donato (Wagner Moura) pela primeira vez falha na tentativa de resgatar um afogado, um motociclista alemo. Konrad (Clemens Schick), o outro motociclista, quer ficar por ali, em Fortaleza, esperando o corpo dar na areia, para poder lev-lo de volta para casa. Donato espera junto; tendo mergulhado com ele na confuso das ondas e do desespero da vtima, o espectador entende que seja assim. E entende que esse momento tenha despertado outra coisa, um desejo irrefrevel entre Donato e Konrad. No banco do carro ou no quarto do hotel, eles fazem um sexo intenso, que nada tem de terno nem romntico. De dia, na sua viglia, conversam, contam coisas. Diz Donato, enquanto eles olham o mar, sentados na areia, que alguns anos antes esse exato ponto era coberto de gua: um aterro, porm, fez a praia avanar centenas de metros. "Estamos no meio do mar", cisma ele. Da mesma forma que nos outros filmes do diretor Karim Anouz, como Madame Sat, O Cu de Suely ou Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, em Praia do Futuro (Brasil/Alemanha, 2014), j em cartaz, os personagens esto extraviados num ponto qualquer de sua geografia ntima, como algum que tivesse descido de uma carona antes da hora  querem ser outra coisa, ou talvez poder ser o que de fato so, mas h distncia a cobrir a. No h, porm, estrada;  preciso inventar um caminho. E sabe-se l aonde se vai chegar, e o que se vai perder at a chegada. 
     Assim  que, da Fortaleza desorientadora da primeira metade do filme  toda contrastes cortantes entre azul e amarelo, silhuetas de guindastes porturios e vias perimetrais , Praia do Futuro se muda para a cidade que  uma espcie de emblema de solido e separao: Berlim, onde Donato vai passar frias com Konrad. Em uma cena maravilhosa, o alemo interpreta para o namorado a cano Aline, clssico francs do corao partido. Konrad quer que Donato fique; Donato diz que no, porque tem me, irmo pequeno e emprego. E, no entanto, oito anos depois ele estar l ainda, e Ayrton, o irmo deixado para trs sem notcias, chega  sua procura  ou, na verdade,  procura de uma explicao para o abandono. No que necessariamente haja explicao a dar. Interpretado por Jesuta Barbosa (de Tatuagem e da minissrie Amores Roubados), um estrondo mesmo ao lado de dois atores to fortes, Ayrton ser, afinal, o lugar onde todos os caminhos de Donato se cruzam. 
     Diz Anouz que uma de suas grandes inspiraes para o filme (alm de Heroes, de David Bowie, o hino da Berlim dividida pelo muro) foi o cinema de Rainer Werner Fassbinder. Talvez Anouz no se d conta, mas em Praia do Futuro ele  muito melhor que Fassbinder. Como ao alemo, sobra-lhe disposio para seguir seus personagens at nas viagens mais dolorosas. Mas, felizmente, faltam-lhe a autoimportncia e a tendncia para forar a mo. Praia do Futuro  exmio na estrutura (repare-se, por exemplo, no espelhamento abalador entre a primeira e a ltima cena) e superlativo na compreenso de como um roteiro deve ganhar outras dimenses na locao, com os atores.  um filme cheio de lacunas e silncios no qual nada  suprfluo ou substituvel. E, no entanto,  um filme que nunca se deixa enamorar de sua enorme percia; tem carter e honestidade demais para isso. 


8#3 CINEMA  ISSO A NOVELA NO MOSTRA
Regina Duarte surpreende sem glamour nem maquiagem 

     Gloria Polk (Regina Duarte)  uma celebridade. Feminista ferrenha, publicou nos anos 1970 livros de repercusso internacional sobre a condio da mulher. Mas algum acidente de percurso a fez trocar as letras pelo forno e fogo e tornar-se banqueteira de sucesso. Depois de quase duas dcadas sem escrever uma linha, retomou a carreira literria, dessa vez como romancista best-seller, mas no momento encontra dificuldades para terminar seu mais novo ttulo, aguardado ansiosamente pelos fs. Por tudo isso  e um pouco mais , a jornalista Carol (Brbara Paz) chega nervosa e cheia de expectativas ao apartamento da escritora para entrevist-la. Afinal, Gloria  tambm avessa  imprensa. 
     O embate entre a experiente e amarga femme du monde e a jovem insegura e ambiciosa deixa claro desde o princpio que as aparncias enganam  e faz de Gata Velha Ainda Mia (Brasil, 2013), j em cartaz no pas, uma agradvel surpresa. No s pelo fato de mostrar Regina Duarte despida do permanente glamour de estrela televisiva (ela se deixa fotografar em close-up sem maquiagem nem disfarce rejuvenescedor algum, e reproduz o andar claudicante dos mais velhos), mas tambm por ser um suspense intimista e gil conduzido com segurana pelo diretor Rafael Primot, em seu primeiro longa. 
     As referncias utilizadas so aquelas constantemente revisitadas (A Malvada, Crepsculo dos Deuses, O que Ter Acontecido a Baby Jane?), porm trabalhadas aqui de maneira sutil e sem afetao, seja na construo dos personagens, no clima de algumas cenas ou inseridas em um dilogo bem-humorado. Longe do cinema desde Alm da Paixo, dirigido por Bruno Barreto em 1986, Regina faz de Gloria tanto a megera clssica do filme de terror quanto a senhora esquisitona do apartamento ao lado. E Brbara Paz, alternando entre a fingida bem-intencionada e a vingativa rancorosa, parece muito mais  vontade que em seus trabalhos na TV. A ao, centrada em um apartamento, tem algo de claustrofbico e revela a origem teatral do projeto. Mas tambm fornece a temperatura exata para esse intenso cozido de neuroses femininas. 
MRIO MENDES


8#4 LIVROS  A BELEZA DA GUERRA
Uma estudiosa americana argumenta que a Ilada tem um fundo pacifista. Ela faz um belo ensaio literrio, mas no convence: o fato  que os gregos admiravam uma boa luta.
CARLOS GRAIEB

 difcil, talvez impossvel para o leitor de hoje admirar a Ilada, o primeiro dos clssicos da literatura ocidental, sem alguma reserva ou hesitao. Mesmo quando a soberba qualidade artstica do poema  reconhecida, resta um problema: como lidar com a viso que a obra de Homero tem da guerra?  uma interrogao diante da qual os intrpretes modernos do poema invariavelmente se detm. O escritor italiano Primo Levi, que combateu numa brigada antifascista na II Guerra Mundial e depois sobreviveu ao campo de concentrao de Auschwitz, deu uma resposta visceral: "Para mim  quase intolervel a leitura da Ilada, essa orgia de batalhas, chagas, mortes, a histria dessa guerra estpida e eterna, da clera infantil de Aquiles". H outras respostas,  claro. Acaba de sair no Brasil um bom livro inteiramente dedicado a esse tema, A Guerra que Matou Aquiles (traduo de Marcio Hack; Bertrand Brasil; 396 pginas; 48 reais), da americana Caroline Alexander. Calcada num firme domnio da obra e daquilo que as maiores autoridades em histria e lingustica tm a dizer sobre ela, a autora prope uma inverso da perspectiva de Levi: que a Ilada seja, de fato, um poema da paz. 
     Quem l a Ilada pela primeira vez com frequncia se surpreende por no encontrar ali o rapto de Helena, o calcanhar de Aquiles atravessado por uma flecha, o cavalo de madeira onde se escondem os guerreiros gregos. Esses e outros episdios mticos associados  Guerra de Tria tiveram seus prprios poemas na Antiguidade, que s chegaram ao presente em resumos ou fragmentos. A Ilada, na majestade dos seus 15.693 versos, enfoca um curto intervalo de tempo  cerca de cinquenta dias no dcimo e ltimo ano do cerco grego s muralhas troianas. Ela comea quando Aquiles, encolerizado, decide abandonar o campo de batalha por ter sido insultado por Agamenon, o lder do exrcito grego; mostra os efeitos da ausncia do mais poderoso de todos os heris; relata o seu retorno furioso depois da morte do amigo Ptroclo pelo prncipe troiano Heitor; e se encerra quando o mesmo Heitor, derrotado e insepulto durante onze dias, tem o corpo resgatado por seu pai, o rei Pramo. Todo o enredo da Ilada  definido, ento, pelo duplo movimento de Aquiles, que se retira da batalha e depois retorna. E todo o significado do poema est concentrado nas razes que o heri possa ter para voltar  muito embora ele saiba, porque assim diz uma profecia, que morrer se retomar as armas. 
     A resposta consagrada  que Aquiles escolhe a glria em vez da vida. Como diz o filsofo alemo Peter Sloterdijk, "para os antigos um mundo sem manifestaes hericas significa o nada"  uma situao em que eventos indiferentes se repetem sem cessar. E por isso os antigos "se movimentam num mundo repleto de um belicismo feliz e sem limites". Um tero dos versos da Ilada  ou 5500   dedicado a duelos. Trezentos deles so narrados, e as cores so sempre fortes: "Assim falando atirou a lana./ E Atena guiou-a at o nariz,/ entre os olhos de Pandaro. Penetrou atravs dos alvos dentes./ O bronze renitente cortou a lngua pela raiz e a ponta/ da lana saiu por baixo, pela base do queixo". 
     Caroline Alexander sustenta que a celebrao da guerra  to somente a superfcie da Ilada  a ptina deixada no poema por cantos mais antigos que lhe serviram de fonte , e que a sua sabedoria profunda aponta em outra direo. Ela viria da experincia dos gregos nos sculos que antecederam a composio do livro. Segundo a hiptese mais aceita, a Ilada foi criada por volta de 750 a.C. (vinte ou trinta anos antes de sua obra irm, a Odisseia, que fala do retorno ao lar de Ulisses, o mais astuto dos gregos que combateram em Tria  seja por um homem chamado Homero, seja pelo trabalho conjunto de uma linhagem de poetas. O sculo VIII a.C. marca precisamente o fim da Idade das Trevas  um perodo de aproximadamente 400 anos sobre o qual pouco se sabe, porque ele se sucedeu ao colapso da civilizao grega anterior, chamada de micnica, por razes igualmente obscuras: invases, rebelies internas, calamidades naturais, ou talvez uma combinao de tudo isso. A prpria Guerra de Tria  o evento real, que os arquelogos hoje situam na vizinhana do ano de 1250 a.C.  foi um dos ltimos grandes acontecimentos da era micnica, e pode ter contribudo para a desordem que levou ao seu fim. 
     Os gregos do tempo de Homero, portanto, sabiam bem demais o que  um mundo destroado  e  por isso, diz a autora, que a Ilada "insiste em retratar a guerra como uma catstrofe sem sentido". Antes de Alexander, outra leitora j havia feito interpretao semelhante. Em 1940, depois de a Frana sucumbir aos nazistas na II Guerra, a ensasta Simone Weil escreveu A Ilada ou o Poema da Fora, uma das mais clebres anlises de Homero no sculo XX, e sustentou que por trs do manto de violncia do pico se esconde um olhar que se poderia chamar de piedoso. Weil chega a aproximar a Ilada dos Evangelhos. 
     O ensaio de Simone Weil  admirado, mas so poucos os que se deixam persuadir por ele. Da mesma forma, A Guerra que Matou Aquiles  um exerccio bem-vindo de interpretao literria e de apresentao do melhor conhecimento sobre a Antiguidade grega. Mas sua tese no  convincente, no especfico ou no atacado. Alexander  assim como Weil antes dela  parece incapaz de admitir que h 3000 anos, como ainda hoje, a guerra possa provocar sentimentos de exultao, e no apenas de lstima. Essa  a dura verdade da Ilada que nenhum pacifista deveria esquecer ou negar. 


8#5 VEJA RECOMENDA
BLU-RAY 
O HOMEM INVISVEL (THE INVISIBLE MAN, ESTADOS UNIDOS, 1933. PARAMOUNT/UNIVERSAL)
 O ingls James Whale fez fama em Hollywood em 1931, quando dirigiu Frankenstein  que junto com Drcula, do mesmo ano, estabeleceria a reputao da Universal como estdio especializado em filmes de terror. Mas Whale no estava interessado apenas em assustar plateias, e esta adaptao do romance de H.G. Wells  um bom exemplo de sua habilidade em combinar atmosfera macabra e humor. O cientista Jack Griffin (Claude Rains) faz uma experincia desastrosa com uma frmula qumica e se torna invisvel. Envolto em bandagens, como uma mmia, ele se refugia em uma aldeia tentando encontrar um antdoto, sem saber que a substncia tambm o transformar em um psicopata assassino. Passa ento a aterrorizar o povoado, em particular o casal pateta dono da hospedaria. Se os efeitos especiais rudimentares hoje s funcionam para enfatizar as sequncias assumidamente cmicas, a dramtica fotografia em preto e branco  de Arthur Edeson, o mesmo de Casablanca  continua um primor. Curiosidade: a bela namorada do cientista louco  Gloria Stuart, quem em 1997 foi a velha Rose de Titanic.

LIVRO
CANGAOS, DE GRACILIANO RAMOS (RECORD; 224 PGINAS; 35 REAIS)
 "Mistura de retirante, beato e cangaceiro, enfeitada com um patu, duas alpercatas e muitas figuras de retrica": assim, diz Graciliano Ramos, seria o sertanejo descrito por "gente da cidade" que nunca esteve no serto. O autor de Vidas Secas tinha pouca tolerncia para com esses clichs pitorescos. O serto que ele apresenta nestes artigos  brutal, atrasado, ignorante, marcado por renitentes perversidades econmicas e sociais. Organizado pelos pesquisadores Ieda Lebensztayn e Thiago Mio Salla, da USP, Cangaos rene dezesseis textos, escritos entre 1931 e 1941, em que este que foi um dos maiores romancistas brasileiros examina o banditismo sertanejo  os cangaceiros Corisco e Lampio esto entre os personagens histricos escrutinados pela prosa seca e elegante de Graciliano. Dois textos so inditos em livro: ''Dois irmos", que parte de Pedra Bonita, romance de Jos Lins do Rego, para fazer uma anlise desencantada da realidade nordestina, e uma entrevista fictcia com Lampio (a autoria  presumida: foi publicada, sem assinatura, em uma revista na qual Graciliano colaborava).

DISCOS
VISTA PRO MAR, SILVA (SOM LIVRE)
 Vista pro Mar  o segundo disco deste cantor, compositor e multi-instrumentista capixaba.  um disco mais solar que Clarido (2012), lbum de estreia de Silva, que era marcado por eletronices e pelo clima introspectivo. No novo disco, os teclados figuram de forma mais discreta, com timbres elegantes que lembram a sonoridade de bandas inglesas como Japan e Duran Duran  embora o compositor prefira citar o acriano Joo Donato e o grupo ingls Fleetwood Mac como as principais influncias do lbum. Enfim, sejam quais forem as matrizes sonoras do novo trabalho de Silva, o fato  que Vista pro Mar traz uma deliciosa coleo de msicas pop bem engendradas. Sua competncia abrange da riqueza das melodias  qualidade dos arranjos, que incluem teclados, piano, naipe de cordas e metais. Silva no  um intrprete potente, mas sabe usar a delicadeza de sua voz: brilha tanto nas canes mais introspectivas (Janeiro) quanto nas alegrinhas (Okinawa, dueto com a onipresente Fernanda Takai).  Preciso Dizer  outro grande momento do lbum: os sons do mar compem uma espcie de simbiose com os teclados e a bateria

SETTLE, DISCLOSURE (UNIVERSAL)
 A dupla inglesa formada pelos irmos Guy e Howard Lawrence faz sua estreia neste disco, que chega s lojas brasileiras na esteira da apresentao dos rapazes no festival Lollapalooza. Settle concorreu ao Grammy de msica eletrnica  perdeu para Random Access Memories, o arrasa-quarteiro do duo francs Daft Punk. Tambm ganhou elogios do guitarrista e produtor Nile Rodgers, que participou de um single recente do Disclosure. Guy, de 22 anos, e Howard, de 20, podem at no ser a salvao do cenrio tecno britnico, ttulo que receberam da ansiosa crtica de seu pas. Mas fizeram um trabalho esmerado, com muita house music (em termos leigos, um cruzamento da disco com o pop eletrnico) e presena discreta de outros gneros, como o hip-hop e o dubstep. O disco traz a participao marcante de vocalistas com voz decalcada do soul, dando vida s batidas eletrnicas de Guy e Howard Lawrence. Sam Smith  uma das razes do sucesso do single Latch. Igualmente deliciosos so os vocais sussurrantes da cantora Jessie Ware em Confess to Me. O Disclosure funciona que  uma beleza na pista de dana  mas tambm merece aquela audio cuidadosa, em casa, com fones de ouvido.

CINEMA
A RECOMPENSA (DOM HEMINGWAY, INGLATERRA, 2013. J EM CARTAZ NO PAS)
 No h como no afirmar que desde a cena de abertura este filme no diz a que veio: nu no chuveiro da priso, Dom Hemingway (Jude Law) celebra em um monlogo as qualidades de seu rgo sexual enquanto recebe um, digamos, favor de outro preso. Libertado depois de doze anos, o arrombador de cofres Dom quer agora que lhe dem o que lhe  devido: bebida, drogas, prostitutas e muito dinheiro, este tirado do bolso de Fontaine (Demian Bichir), o mafioso que ele protegeu cumprindo pena. Mas o vulgar, explosivo e destrambelhado Dom, que fala como um Ricardo III de taverna, meio que estraga suas chances com Fontaine: no obstante os cuidados do amigo Dickie (Richard E. Grant, excelente), ele comete a impropriedade de dizer na cara do chefo tudo o que gostaria de fazer com a amante dele. O diretor Richard Shepard adora tipos intempestivos, como visto em O Matador, com Pierce Brosnan, e A Caada, com Richard Gere. Mas, se aqui ele peca pela guinada sentimental (o que Dom realmente quer  reatar o relacionamento com sua filha), Jude Law comparece com todas as suas mais impressionantes virtudes. 


8#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Escolha. Kiera Cass. SEGUINTE
2- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA 
3- Divergente. Veronica Roth. ROCCO 
4- Insurgente. Veronica Roth. ROCCO 
5- A Menina que Roubava Livros. Markus Zusak. INTRNSECA
6- Quem  Voc, Alasca? John Green. MARTINS FONTES 
7- Adultrio. Paulo Coelho. SEXTANTE 
8- Convergente. Veronica Roth. ROCCO 
9- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
10- Fim. Fernanda Torres. COMPANHIA DAS LETRAS 

NO FICO
1- O Tempo  um Rio que Corre. Lya Luft. RECORD
2- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA 
3- Demi Lovato  365 Dias do Ano. Demi Locato. BEST SELLER 
4- 1889. Laurentino Gomes. GLOBO 
5- Guia Politicamente Incorreto do Futebol. Jones Rossi e Leonardo Mendes Junior. LEYA BRASIL
6- Pitadas da Rita. Rita Lobo. PANELINHA
7- O Livro da Psicologia. Nigel Benson. GLOBO
8- Assassinato de Reputaes. Romeu Tuma Jr. TOPBOOKS 
9- Eu Sou Malala. Malala Yousafzai. COMPANHIA DAS LETRAS 
10- O Livro das Religies. Vrios. GLOBO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
2- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
3- Pais Inteligentes Formam Sucessores, No Herdeiros. Augusto Cury. BENVIR 
4- O Encontro Inesperado. Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA
5- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
6- Eu Me Chamo Antonio. Pedro Gabriel. INTRNSECA 
7- Foco. Daniel Goleman. OBJETIVA 
8- Crianas Francesas No Fazem Manha. Pamela Druckerman. FONTANAR
9- A Magia. Rhonda Byrne. SEXTANTE 
10- O que Falta para Voc Ser Feliz? Dominique Magalhes. GENTE 


8#7 J.R. GUZZO  BALA PARA TODO LADO
     Alguma coisa acontece na cabea da presidente Dilma Rousseff quando se cruzam ali dentro a avenida por onde passam os pensamentos que ela quer transmitir ao pblico e a avenida de onde eles saem para o mundo, depois de transformados em palavras. Ou, ao contrrio, alguma coisa que deveria acontecer nessa hora no acontece. Seja por um motivo ou por outro, o fato  que a presidente, de uns tempos para c, no est fazendo muito sentido, ou mesmo nenhum sentido, quando fala de improviso. Dilma, nessas ocasies, imagina que est usando a linguagem do "grande pblico". Mas a coisa no vai. Ela d na chave, d de novo, insiste, mas o motor no pega. O resultado final  que s vem conseguindo tornar-se cada vez mais incompreensvel. No  exagero. Tente, por exemplo, entender o seguinte: "Quando voc chega num banco, ele te pergunta qual a garantia que voc me d? Eu vou pagar a vocs, para me aceitar emprestar um dinheiro para voc me pagar". Isso a foi dito por Dilma em Feira de Santana, no fim de abril, numa viagem de sua campanha eleitoral em que presenteou prefeituras do interior da Bahia com tratores, escavadeiras e outras mquinas. No  uma distoro do que disse, nem um boato   o  que consta nos registros oficiais do Palcio do Planalto. No  tampouco uma "frase fora do contexto";  fora da compreenso humana. 
     Pelo jeito, a presidente est tendo dificuldades nos circuitos cerebrais que traduzem as ideias em sons, os sons em palavras e as palavras em frases inteligveis. As cordas vocais no esto obedecendo s ordens enviadas pelo crebro  ou o crebro est enviando ordens desconexas para as cordas vocais. No caso de Feira de Santana, no conseguiu acertar nem a pontuao. Poderia ter sido, talvez, apenas um momento infeliz? Infeliz o momento foi, com certeza; mas no foi um momento. Ao contrrio, esse caos que Dilma constri quando fala em pblico vem sendo um processo, ou pelo menos uma srie de muita constncia.  s ver o que ela anda falando. "Esse receiturio que quer matar o doente, em vez de curar o paciente, ele  complicado", disse numa viagem recente  frica do Sul, referindo-se s ideias de controlar a inflao atravs da reduo do gasto pblico. "Isso est datado." Como assim? Matar o doente, como ela diz, no  "complicado";  simplesmente estpido. Tambm no  um tratamento "datado", que j valeu mas hoje est obsoleto; matar gente nunca foi certo. 
     Ainda outro dia, numa conversa com jornalistas em Braslia, voltou s suas aulas de economia: "A vem uma pessoa e diz que a meta da inflao  3%. Faz uma meta de 3%... Sabe o que significa? Desemprego l pelos 8,2%". De onde vm esses exatssimos "0,2%" que ela acrescenta aos 8%, quando seu governo no acerta sequer uma previso para o dia seguinte? Dilma j disse que "a inflao foi uma conquista desses dez ltimos anos de governo, do presidente Lula e do meu governo". Supe-se que tenha havido a um desencontro entre o que pensou e o que falou  e o que pensou era mentira. Num seminrio nos Estados Unidos, enfiou-se de repente no tema de nibus escolares e informou  plateia: "No Brasil no  assim conosco. Estamos criando o nibus escolar padronizado do incio do sculo XXI". Logo depois explicou ao investidor privado que, "se quiser fazer o backroll, perfeitamente, ele faa o backroll, se quiser fazer o backbone, perfeitamente, faa o backbone. Ns no queremos 1 mega real de banda larga, ns queremos o padro, eu no vou dizer qual  o padro". Por que no? E essa histria de backroll e backbone? 
     Dilma tambm foi capaz de fazer, em pleno exerccio da Presidncia da Repblica, a seguinte orao: "Primeiro, eu gostaria de dizer que eu tenho muito respeito pelo E.T. de Varginha. Este respeito pelo E.T. de Varginha est garantido". A presidente estava em Varginha, em Minas Gerais, para visitar, acredite-se ou no, um "museu do E.T.", no qual o governo federal aplicou cerca de 1 milho de reais. (Iniciado em 2007, o museu nunca ficou pronto, e jamais foi visitado por ningum. Est abandonado desde 2010.) Outro grande momento foi no Cear, agora em maro. "Os bodes, eu no me lembro qual  o nome, mas teve um prefeito que me disse assim: 'Eu sou o prefeito da regio produtora da terra do bode'. Ento ns vamos fazer um Plano Safra que atenda os bodes que so importantssimos".  bala para todo lado. 
     "Pobre Dilma Rousseff", escreveu a seu respeito o Financial Times. Parecia uma Angela Merkel, com eficincia alem. Acabou com um desempenho de irmos Marx. 


